Voltar a Salvador

Morei em Salvador de janeiro a outubro de 1997. Fui por dois motivos pessoais e um profissional: a promessa de trabalho em uma editora. Meu sonho era analisar manuscritos, preparar originais, conversar com autores, escolher capas, acompanhar fotolitos, uma festa.  Consegui o emprego e aprendi rapidamente a diferença entre editora e gráfica que imprime livros. Eu estava no segundo caso. As publicações eram raras, quase não passavam por mim e o meu trabalho era diagramar cartões de visita, folders e notas fiscais.

( À  época uma pessoa me disse que eu nunca seria editora, que isso era uma ilusão boba, nada mais. Oito anos depois, já formada em jornalismo e mestre em Literatura, fui convidada a assumir a função de Coordenadora Editorial da Fundação Demócrito Rocha, cargo que ocupei por um ano e meio. Pedi demissão. Não tenho perfil para lidar com tantas vaidades, urgências e egos. Foi só um sonho equivocado. )

Em Salvador, a vida era dura. Muito trabalho e pouco dinheiro. Minha sorte – como sempre – foi contar com os amigos. A princípio morei no Rio Vermelho, dividindo apartamento com as divertidas irmãs Achy, baianas descendentes de libaneses. Meu prédio ficava muito perto da casa onde viviam Jorge Amado e Zélia Gattai – rua Alagoinhas, 33. Morria de vontade de ir lá, mas não encontrei nenhuma maneira de fazer isso. Se fosse hoje eu tocaria a campainha, mas então eu era uma menina de 22 anos que ainda não sabia que não se perde um sonho por timidez.

Por questões pessoais e profissionais, voltei pra casa em outubro de 1997. Deixei Salvador sem ter conhecido a casa do Rio Vermelho, sem ter visto Jorge e Zélia. Nunca me conformei.  Mas a vida seguiu e em 2010 comecei o meu doutorado em Estudos de Literatura com um projeto de tese sobre Gabriel García Márquez e Jorge Amado, analisando a representação da infância na literatura latino-americana a partir desses dois autores.

Guiada pelo olhar doce e acolhedor de Paloma Amado, voltarei a Salvador nos próximos dias para refazer os passos de Jorge, pesquisar nos arquivos da Fundação Casa de Jorge Amado e buscar respostas para as perguntas que minha tese propõe. Ontem, enquanto arrumava a mala, constatei que tudo o que sonhei pra mim em 1997 hoje é realidade. Vou a Salvador para sonhar mais.

Registrarei a viagem com fotos e textos aqui no blog. E quero que você venha comigo.

Ano passado fui convidada pelo escritor Raymundo Netto, então coordenador da Bienal do Livro do Ceará, para mediar uma palestra com Marina Colassanti. Diante da responsabilidade absurda de conduzir um dos momentos mais importantes e concorridos dessa Bienal, não imaginei que dali surgiria uma amizade.

A palestra esticou para o jantar e  seguiu por e-mail. Depois de ler alguns dos meus livros, Marina lançou a pergunta mais importante que já me fizeram na vida: afinal de contas, qual é o seu projeto literário?

Venho perseguindo essa resposta. Com quatorze livros publicados na época, parei para pensar de fato o que eu quero disso, porque eu quero, para onde desejo caminhar, qual o meu projeto estético, o que sou quando escrevo. O blog desacelerou ao mesmo tempo. Ele é um apêndice do meu trabalho como escritora e entrou no pacote de questionamentos. Ainda não tenho respostas definitivas, mas sigo no caminho e estou bem mais perto.

Enfim, chegou a hora de voltar. Esse blog começou no dia 07 de junho de 2006, com a promessa de escrever sobre o que me faz bem.  Agora, dia 01 de fevereiro de 2011, abro as portas da casa nova e reescrevo a frase: esse blog é para escrever sobre o que me faz bem e para fazer bem a quem passar por aqui. Sejam todos muito bem vindos.