Carta de Beirute # 1 – A viagem

Enfim, cheguei a Beirute. Do que vi no avião, parece que essa cidade que vai marcar meu relicário de coisas bonitas que vi pelo mundo afora. São quatro da manhã aqui, mas meu corpo pensa que são onze da noite. (Ele também pensa que macarrão não engorda, haja paciência.) Foram 40 horas de viagem, quatro voos, quatro idiomas diferentes – ou mais que isso, já que também falaram comigo em árabe.

O voo Rio-Paris atrasou mais de oito horas e foi uma confusão. No fim das contas, a turma dos prejudicados acabou unindo forças, conversando, emprestando carregador de celular e tudo deu certo. Fiquei amiga de uma francesa que trabalha fabricando tubos e conexões para plataformas de petróleo. Falei do Monteiro Lobato pra ela – tudo o que sei de petróleo aprendi no Poço do Visconde. Ela ficou interessada e vai procurar o livro, já que é filha de português e lê bem na nossa língua.

Pisei em Paris em pleno 14 de julho, um dia lindo de sol e bom tempo, mas tudo o que conheci foi o trajeto entre os terminais do gigantesco Charles de Gaulle. Em um dos ônibus, estávamos eu e outra brasileira quando o motorista perguntou de onde éramos. Ao ouvir a resposta ele gritou BRESIL! Imaginei que, a seguir, ele exclamaria PELÉ, RONALDO, CARNAVAL, COPACABANA ou algo do gênero. Foi muito mais grave:

– BRÉSIL!  MOLIÉMELENCIÁ!

Não somos mais o país do Pelé, meus amigos. Somos o país da Mulher Melancia. E antes que eu desenvolva uma explicação sobre o que senti nesse momento, vamos seguir com a carta de hoje.

O voo de Paris a Frankfurt estava lotado de asiáticos. Meu irmão, que morou no Japão, sabe identificar todas as diferenças entre um coreano, chinês ou japonês. Eu não. Portanto, chamarei de asiáticos e sei que ele ficará com raiva se ler isso. Pois. Eu tenho um problema grave. Meus ouvidos decodificam o idioma deles e transforma as palavras em correspondentes ao português. Por exemplo: hoje uma senhora estava procurando algo desesperadamente em todas as bolsas que usava. Enquanto reclamava com o marido – deve ter sido ele quem guardou o negócio, se não foi, tem culpa do mesmo jeito e era disso que ela certamente estava falando – eu ouvia assim na minha tecla SAP cerebral:

– TACA O URSO NA CIÊNCIA!  TACA O URSO NA CIÊNCIA!

Imaginaram a cena? Ouvi muitas outras frases absurdas, mas esqueci de anotar.

Sigamos. O voo da França pra Alemanha foi tranquilo. Vi Frankfurt da janela e lembrei dos três dias que passei lá na Feira do Livro de 2007, com episódios felizes e bizarros. No aeroporto foi só correria de novo, nem deu tempo pra descansar, comer uma coisinha no Café Goethe, passar no free shop…

Quando dava para parar um pouquinho eu sempre pensava que alguém precisa escrever um livro ou manual sobre moda no aeroporto. Não consigo entender porque alguém viaja de salto agulha, por exemplo. E acho o máximo quem usa aquelas calças cargo de cor cáqui, cheias de bolsos. Mas de todos os looks que vi, escolhi o modelito Sue Silvester como mais confortável. Para andar, dormir no avião, sem dúvidas é a opção mais confortável.

Fiquei fã da Lufhtansa, os passageiros também: os gritos e aplausos na aterrissagem foram efusivos e nessa alegria toda, cheguei a Beirute. Adoro chegar em terra estranha e ter alguém para me receber. Estava lá o André, da Embaixada, todo sorridente às três da manhã, coitado. Estou muito feliz pela recepção tão simpática.

Instalei minhas coisas no quarto e vim falar com a família. Cá estou, escrevendo a carta prometida.

O detalhe bizarro eu deixei pro final: meu cabelo está cor de rosa. É sério. Fiz um banho de brilho para cobrir os fios brancos. A profissional usou uma tal de tinta acaju, que deveria ser um castanho avermelhado. A tinta clareou e no topo da cabeça, onde eu tinha fios brancos, agora tenho uma linda composição cor de rosa.

E com essa notícia bombástica, a primeira Carta de Beirute chega ao fim. Amanhã vou procurar descansar. Segunda começa o meu curso e eu sempre fico muito tensa na véspera da primeira aula. Preciso ter um plano A, B e C de desenvolvimento de aula, de acordo com a participação dos alunos.

Preciso também aprender a pronunciar o nome deles. Estou em Beirute, enfim!

Até a próxima!

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3 comentários sobre “Carta de Beirute # 1 – A viagem

  1. Adorei a carta, Socorro! Morri de rir com a tua “tradução” do que a asiática falou no avião! hahahahah E você vai mostrar teu cabelo rosa, né? Ah, diz que sim! 🙂 Bom curso pra você! Bjs!

  2. Olá, Socorro
    Puxa, que aventura! A pessoa precisa muito querer chegar a Beirute, no nosso caso de brasileiros. Interessante seu encontro com a empresária de tubos para petróleo: realmente o lugar da Literatura é todos os lugares, principalmente se o escritor for Lobato, com sua imaginação e pé na vida!!!
    O que sairá de sua cabeça com os cabelos cor-de-rosa!!!???
    Vamos aguardar!
    Aproveite tudo e ficamos aqui aguardando com ansiedade a chegada do próximo correio.
    Beijos
    Fernanda

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