Carta de Beirute #2 – As aulas começaram

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Vamos revisar: saí de Fortaleza sexta-feira às cinco da manhã e cheguei em Beirute no domingo às quatro da manhã. Nessa madrugada eu não consegui dormir quase nada. À tarde fui almoçar com o André e o Frank – ambos da Embaixada, muito gentis e divertidos – no Leila , um restaurante fantástico de comida libanesa. Primeiro impacto cultural: o narguile. Quase todo mundo fumando, inclusive na parte fechada do lugar.

Tentei descansar depois do almoço, mas não dormi do domingo pra segunda, novamente. Foi uma mistura de fuso horário bagunçado (estou seis horas a mais) com a tensão pela véspera do início das aulas, minha responsabilidade é enorme.

Estou em Beirute para contribuir com o Centro Cultural Brasil-Líbano, que tem a missão de difundir a língua e cultura brasileiras no país. Meu trabalho é preparar um grupo de nove alunos que irão começar sessões de leituras públicas de literatura infantojuvenil brasileira no Centro Cultural.

O conteúdo do curso passa por noções de elementos estruturais da narrativa, algumas ideias gerais sobre formação de leitores e infância, história de literatura infantojuvenil no Brasil – com destaque para Lobato e prática de leitura em público. Transmitir o conteúdo é fácil, preparei bem as aulas, é tranquilo para mim. O meu grande desafio é fazer isso e conseguir motivar o grupo a seguir adiante com o projeto. Outro desafio é esquecer a verve acadêmica e passar um conteúdo de nível elevado em linguagem acessível, com atividades, brincadeiras e estimulando a participação deles. Ufa!

A véspera é sempre tensa. Fico imaginando quem são, como participarão da aula, se são tímidos, se gostam do tema, quais serão meus desafios. Para meu alívio, minha turma libanesa é a melhor possível. Em outra carta falarei deles todos com mais calma, mas adianto que estou encantada.

Ainda tenho duas aulas e três sessões públicas de leitura. Enquanto o curso segue, não estou saindo e por isso não vi quase nada de Beirute além do meu bairro, Achrafieh. Prefiro ficar no hotel preparando e ajustando as aulas de acordo com o ritmo e perfil da turma. Na verdade, refiz tudo o que trouxe preparado do Brasil, com todo prazer.

Termino a carta do dia contando que hoje recebemos a visita do Embaixador do Brasil no Líbano, Paulo Roberto Campos Tarrisse da Fontoura na nossa sala de aula. A foto ficou muito boa, felizmente. Estávamos, todos, felizes e honrados com a presença e simpatia do Embaixador.

Amanhã a aula será decisiva para a motivação dos alunos e continuidade do projeto. Farei o melhor possível.

Até a próxima carta!

S.

P.s!

1.Eu sei, vocês estão reclamando mentalmente. Essa carta não foi engraçada com a outra, eu só falei de trabalho. Mas é o reflexo do meu clima aqui, eu estou no Líbano para isso. Depois de sábado vou passear.

2. Sobre o cabelo, não está mais rosa. Assumiu um tom vinho, o que é um pouco mais digno para uma senhora da minha idade.

3.O café da manhã no hotel é um tema a parte. Acho que vale fazer uma carta só sobre comidas. O que acham?

4. Um sujeito falou comigo em árabe no meio da rua. Não faço ideia do que disse, mas estava bem simpático, parou o carro, deu uma buzinada. Só Deus sabe o que foi isso. Por via das dúvidas, meu marido pediu que eu providenciasse uma burka para sair à rua protegida dessas simpatias. Detalhe: a temperatura de Beirute é de 37 graus. A burka faria a função de sauna. Se emagrecer, até topo.

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Carta de Beirute # 1 – A viagem

Enfim, cheguei a Beirute. Do que vi no avião, parece que essa cidade que vai marcar meu relicário de coisas bonitas que vi pelo mundo afora. São quatro da manhã aqui, mas meu corpo pensa que são onze da noite. (Ele também pensa que macarrão não engorda, haja paciência.) Foram 40 horas de viagem, quatro voos, quatro idiomas diferentes – ou mais que isso, já que também falaram comigo em árabe.

O voo Rio-Paris atrasou mais de oito horas e foi uma confusão. No fim das contas, a turma dos prejudicados acabou unindo forças, conversando, emprestando carregador de celular e tudo deu certo. Fiquei amiga de uma francesa que trabalha fabricando tubos e conexões para plataformas de petróleo. Falei do Monteiro Lobato pra ela – tudo o que sei de petróleo aprendi no Poço do Visconde. Ela ficou interessada e vai procurar o livro, já que é filha de português e lê bem na nossa língua.

Pisei em Paris em pleno 14 de julho, um dia lindo de sol e bom tempo, mas tudo o que conheci foi o trajeto entre os terminais do gigantesco Charles de Gaulle. Em um dos ônibus, estávamos eu e outra brasileira quando o motorista perguntou de onde éramos. Ao ouvir a resposta ele gritou BRESIL! Imaginei que, a seguir, ele exclamaria PELÉ, RONALDO, CARNAVAL, COPACABANA ou algo do gênero. Foi muito mais grave:

– BRÉSIL!  MOLIÉMELENCIÁ!

Não somos mais o país do Pelé, meus amigos. Somos o país da Mulher Melancia. E antes que eu desenvolva uma explicação sobre o que senti nesse momento, vamos seguir com a carta de hoje.

O voo de Paris a Frankfurt estava lotado de asiáticos. Meu irmão, que morou no Japão, sabe identificar todas as diferenças entre um coreano, chinês ou japonês. Eu não. Portanto, chamarei de asiáticos e sei que ele ficará com raiva se ler isso. Pois. Eu tenho um problema grave. Meus ouvidos decodificam o idioma deles e transforma as palavras em correspondentes ao português. Por exemplo: hoje uma senhora estava procurando algo desesperadamente em todas as bolsas que usava. Enquanto reclamava com o marido – deve ter sido ele quem guardou o negócio, se não foi, tem culpa do mesmo jeito e era disso que ela certamente estava falando – eu ouvia assim na minha tecla SAP cerebral:

– TACA O URSO NA CIÊNCIA!  TACA O URSO NA CIÊNCIA!

Imaginaram a cena? Ouvi muitas outras frases absurdas, mas esqueci de anotar.

Sigamos. O voo da França pra Alemanha foi tranquilo. Vi Frankfurt da janela e lembrei dos três dias que passei lá na Feira do Livro de 2007, com episódios felizes e bizarros. No aeroporto foi só correria de novo, nem deu tempo pra descansar, comer uma coisinha no Café Goethe, passar no free shop…

Quando dava para parar um pouquinho eu sempre pensava que alguém precisa escrever um livro ou manual sobre moda no aeroporto. Não consigo entender porque alguém viaja de salto agulha, por exemplo. E acho o máximo quem usa aquelas calças cargo de cor cáqui, cheias de bolsos. Mas de todos os looks que vi, escolhi o modelito Sue Silvester como mais confortável. Para andar, dormir no avião, sem dúvidas é a opção mais confortável.

Fiquei fã da Lufhtansa, os passageiros também: os gritos e aplausos na aterrissagem foram efusivos e nessa alegria toda, cheguei a Beirute. Adoro chegar em terra estranha e ter alguém para me receber. Estava lá o André, da Embaixada, todo sorridente às três da manhã, coitado. Estou muito feliz pela recepção tão simpática.

Instalei minhas coisas no quarto e vim falar com a família. Cá estou, escrevendo a carta prometida.

O detalhe bizarro eu deixei pro final: meu cabelo está cor de rosa. É sério. Fiz um banho de brilho para cobrir os fios brancos. A profissional usou uma tal de tinta acaju, que deveria ser um castanho avermelhado. A tinta clareou e no topo da cabeça, onde eu tinha fios brancos, agora tenho uma linda composição cor de rosa.

E com essa notícia bombástica, a primeira Carta de Beirute chega ao fim. Amanhã vou procurar descansar. Segunda começa o meu curso e eu sempre fico muito tensa na véspera da primeira aula. Preciso ter um plano A, B e C de desenvolvimento de aula, de acordo com a participação dos alunos.

Preciso também aprender a pronunciar o nome deles. Estou em Beirute, enfim!

Até a próxima!

2011

O ano foi bom, sim. Tudo naquele ritmo característico dos tempos de plantar, exercício de paciência.

Uma das coisas mais legais que fiz em 2011 foi um curso de roteiro com o escritor de cinema mexicano Guillermo Arriaga, autor de Babel, 21 gramas, Amores Perros, dentre outros.  Foi em Santiago do Chile, em outubro.

A Magallanica, empresa que organizou o evento, fez um vídeo curtinho para promover e divulgar as aulas do Arriaga em Londres e Bogotá, em 2012. Dei um depoimento e foi usado na edição.

Posso escrever quilômetros sobre o que aprendi no curso, mas também posso resumir em uma palavra: coragem.

FELIT – São Bernardo do Campo

Estarei na Feira Literária de São Bernardo do Campo no próximo final de semana, lendo e conversando com crianças, jovens e adultos sobre os meus livros “A bailarina fantasma” e o “Inventário de Segredos”, mas também sobre gatos, viagens, comidas, imaginação, sonhos e o que mais der na telha. Os horários estão logo abaixo.

Para mais informações: http://www.educacao.saobernardo.sp.gov.br/index.php/feiraliteraria

Socorro Acioli

Encontro
Espaço de Leitura Monteiro Lobato
07/ago
18:30

Encontro
Espaço de Leitura Maria Clara Machado
08/ago
08:30

Encontro
Auditório
08/ago
09:50

Encontro
Biblioteca FNLIJ para Educadores
08/ago
15:20

Encontro
Espaço FNLIJ Monteiro Lobato
09/ago
08:30

Voltar a Salvador

Morei em Salvador de janeiro a outubro de 1997. Fui por dois motivos pessoais e um profissional: a promessa de trabalho em uma editora. Meu sonho era analisar manuscritos, preparar originais, conversar com autores, escolher capas, acompanhar fotolitos, uma festa.  Consegui o emprego e aprendi rapidamente a diferença entre editora e gráfica que imprime livros. Eu estava no segundo caso. As publicações eram raras, quase não passavam por mim e o meu trabalho era diagramar cartões de visita, folders e notas fiscais.

( À  época uma pessoa me disse que eu nunca seria editora, que isso era uma ilusão boba, nada mais. Oito anos depois, já formada em jornalismo e mestre em Literatura, fui convidada a assumir a função de Coordenadora Editorial da Fundação Demócrito Rocha, cargo que ocupei por um ano e meio. Pedi demissão. Não tenho perfil para lidar com tantas vaidades, urgências e egos. Foi só um sonho equivocado. )

Em Salvador, a vida era dura. Muito trabalho e pouco dinheiro. Minha sorte – como sempre – foi contar com os amigos. A princípio morei no Rio Vermelho, dividindo apartamento com as divertidas irmãs Achy, baianas descendentes de libaneses. Meu prédio ficava muito perto da casa onde viviam Jorge Amado e Zélia Gattai – rua Alagoinhas, 33. Morria de vontade de ir lá, mas não encontrei nenhuma maneira de fazer isso. Se fosse hoje eu tocaria a campainha, mas então eu era uma menina de 22 anos que ainda não sabia que não se perde um sonho por timidez.

Por questões pessoais e profissionais, voltei pra casa em outubro de 1997. Deixei Salvador sem ter conhecido a casa do Rio Vermelho, sem ter visto Jorge e Zélia. Nunca me conformei.  Mas a vida seguiu e em 2010 comecei o meu doutorado em Estudos de Literatura com um projeto de tese sobre Gabriel García Márquez e Jorge Amado, analisando a representação da infância na literatura latino-americana a partir desses dois autores.

Guiada pelo olhar doce e acolhedor de Paloma Amado, voltarei a Salvador nos próximos dias para refazer os passos de Jorge, pesquisar nos arquivos da Fundação Casa de Jorge Amado e buscar respostas para as perguntas que minha tese propõe. Ontem, enquanto arrumava a mala, constatei que tudo o que sonhei pra mim em 1997 hoje é realidade. Vou a Salvador para sonhar mais.

Registrarei a viagem com fotos e textos aqui no blog. E quero que você venha comigo.